Tungstênio
Ele aparecia lá pras 23h, quando a rua já estava mais silenciosa e abria a janela do apartamento olhando de um lado pro outro como um animal atento se certificando de que os predadores já foram embora. Então tirava um maço de cigarro do bolso, acendia um e soprava uma fumaça azulada que, levitando como um véu no ar, carregava gentilmente seus sonhos para longe. Após algum tempo eu lá da calçada também acendia um cigarro e lançava no ar pequenas nuvens espessas e tóxicas, carregadas de ódio e prontas para condensar em lágrimas de alívio. Observamos um ao outro de forma complacente, sem a pretensão de oferecer soluções baratas. Durante cinco minutos éramos apenas dois confidentes iluminados pela luz incandescente do poste. Na manhã seguinte a gente se esbarrava na calçada e desviava o olhar, fingindo que na noite anterior não tínhamos sonhado juntos planos de revolução.


